
Em 1886 o escritor escocês Robert Louis Stevenson lançou sua obra mais brilhante intitulada: “Strange Case of Dr. Jekill and Mr. Hyde” (O Estranho Caso do Doutor Jekill e do Senhor Hyde). Aqui no Brasil essa importante obra literária de língua inglesa foi adaptada para simplesmente “O Médico e o Monstro”.
A premissa do romance conta a história do doutor Henry Jekill, homem comum senão fosse uma estranha obsessão em provar que o homem que a sociedade conhece nada mais é do que uma capa, podendo vez ou outra, tomar múltiplas personalidades – ou nesse caso, pelo menos duas personalidades.
Assim nasce o conto clássico que todos já viram em filmes (Produções homônimas ao livro filmadas em 1932 e 1941, uma delas inclusive ganhadora do prêmio da academia de melhor ator para Fredric March e outra mais recente também adaptada dum Graphic Novel chamada A Liga Extraordinária, onde Jakill/Hyde são alternados num terrível monstro digno de qualquer lenda urbana), ou nos antigos desenhos de TV e até na adaptação da cultura pop onde a Marvel Comics – uma das maiores produtoras de quadrinhos do mundo – criou o Incrível Hulk valendo-se (claramente) do romance de Stevenson.
Queria compartilhar trecho do livro com todos:
"Minha análise da alma, da psique humana, leva-me a crer que o ser humano não é verdadeiramente um, mas verdadeiramente dois. Um deles esforça-se para alcançar tudo que é nobre na vida. É o que chamamos de lado bom. O outro, quer expressar impulsos que prendam-no a obscuras relações animais com a terra. Esse é o que podemos chamar de mal...”
Note a semelhança em outro texto:
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.
Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.
Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.”
(Romanos 7: 18, 19, 20)
O segundo texto, por nós muito mais conhecido, fala um pouco do que escreveu Stevenson e fê-lo viver em Jekill/Hyde. A dicotomia shakesperiana de ‘ser ou não ser’ toma ares reais em contornos da vida de um homem que decidiu ser ‘santo’ no conceito de separação pra viver o Evangelho do Reino.
Paulo Apóstolo estava declarando como homem carnal e falho que era, que existe uma luta medonha entre carne e espírito, luta essa que absolutamente TODOS vivem. Uns querendo rejeitar alguma coisa ruim, outros simplesmente abraçando algo e vivendo à margem disso como sua filosofia de vida.
Eu já cri alguns anos atrás, na ‘infalibilidade do homem santo’ pregada pelos líderes evangélicos. Uma utopia digna de romance vitoriano escrita por Stevensom, ou ainda duma mega adaptação pra quadrinhos como (bem) fez a Marvel Comics.
Só que tanto o romance (que já data pelo menos 126 anos) quanto os quadrinhos, captaram a mesma aura narrada pelo Apóstolo. Existe algo dentro do homem caído que o empurra para o mal. Não estou falando de demônios como os adeptos do casal Mastral ou de Rebecca Brown poderiam sugerir, mas falo da natureza pecaminosa que Paulo descreve no verso 14 que diz:
“...eu sou carnal, vendido sob o pecado.”
Ou seja, minha carne deseja errar, embora minha consciência espiritual alertada pelo Espírito de Cristo, milita por acertar!
Hoje creio de forma mais sadia. Acredito que nós, ao contrário dos personagens de quadrinhos, somos seres bem reais, sujeitos a erros, paixões, tropeços e coisas do tipo. Creio também que o ser extra dimensional criado pelos líderes evangélicos, que mais se parece com um indestrutível super herói, não reflete quem sou, e muito menos quem o homem é.
Somos frágeis como Bruce Benner, oscilando entre um monstro de fúria verde destrutivo e mortal, ou ainda, quem sabe, bipolar como Dr. Jekill saindo à caça nas ruas londrinas sob o manto de Mr Hyde. A diferença é que está em nossas mãos fazer aquilo que o Apóstolo testemunhou de sua própria vida;
“Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.
Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.”
(Romanos 8:13, 14)
Resta decidir quem virá hoje pra jantar... Doctor Jekill, or Mister Hyde?
Recebi por email de Wendel Bernardes, mas merece estar aqui, como sempre!!!